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TANYA DE MAIA PEDROSA,
PINTORA


Fernando Fiúza    

Um marco histórico da pintura naïf ocidental é o francês Henri Rousseau, conhecido como Le Douanier Rousseau (1844-1910). Amigo de poetas vanguardistas, como Apollinaire e Tristan Tzara, e contemporâneo dos primeiros passos do cubismo, Rousseau emplaca seu famosíssimo quadro “Le Rêve” (o sonho) no Salão dos Independentes de Paris, meses antes de falecer. Sua fama e seu alto valor de mercado foram póstumos. Quem se interessa por artes plásticas, quando se depara com um pintor naïf que não provém das classes populares, se lembra da pintura e da figura do Douanier que, em plena desconstrução do figurativismo, pintava florestas luxuriantes, bichos e pessoas com uma nitidez fotográfica.


   Mas o que era uma exceção na França há mais de um século e ainda hoje – onde é clara a divisão entre arte erudita e arte popular –, nunca o foi nos povos ibéricos, muito menos em suas colônias americanas. E esta mescla de esferas se acentuou no Brasil com o advento do romantismo, estilo de época que valorizou e resgatou a origem popular da arte. É quando se vê, por exemplo, um filho da elite praticando, em seus poemas, formas vindas do povo. Os Institutos Históricos e Geográficos fundados nas províncias, durante o império de Pedro II, seguem no rastro desse interesse de mapear, registrar e assim apossar-se de tudo o que fosse manifestação de cultura popular. Os irmãos Grimm fizeram escola, felizmente.


   Tanya de Maia Pedrosa é uma típica descendente da elite empenhada de Alagoas, que desde a segunda metade do século XIX mantém vivo interesse pelo que as camadas desfavorecidas economicamente são capazes de gerar no campo da cultura. O que seria deste estado, do ponto de vista identitário, não fossem o rico acervo folclórico e as ricas práticas artísticas por parte dessa gente? 
   

Tendo contato desde criança (em usinas, fazendas e cidades do interior) com a arte popular – folguedos e cerâmica, sobretudo –, mas educada nos cânones tradicionais (sua mãe, Dona Benita, foi professora de piano clássico), Tânya de Maia Pedrosa trafega à vontade por essas duas esferas. 


   O primeiro passo para o domínio da linguagem artística foi como colecionadora de esculturas em barro e madeira, cujo extraordinário acervo hoje faz da sede do IPHAN-AL, no histórico bairro de Jaraguá, o museu mais importante de Maceió em funcionamento. Neste quesito, encontra-se em boa companhia, pois Degas, Matisse e Lucien Freud também foram colecionadores.


   Mas assim como futuros escritores começam lendo, ganhando, comprando livros e formando suas bibliotecas, Tanya de Maia Pedrosa passou a pintar. E o estilo que escolheu foi aquele com que mais estreitamente convivia, portanto, o que mais conhecia, o estilo naïf. Poderia ter estudado e praticado a pintura canônica, e em Maceió não faltavam bons professores do gênero, como Lourenço Peixoto e Pierre Chalita, mas preferiu a pintura espontânea, livre das amarras da perspectiva e das cifras douradas.


   Seus quadros, em cores primárias e muito vivas, permitem ao menos duas leituras, e o valor semântico da arte está exatamente na quantidade de leituras oferecidas. Podem e devem ser olhados de longe, como telas abstratas, em que há um ritmo geométrico e encantador nas linhas e volumes. Podem e devem ser olhados de perto, onde o figurativo e o anedótico compõem fragmentadas narrativas que fazem referência a lugares, pessoas, personagens e mitos, além das palavras frequentes, em forma de orações religiosas, trechos de poemas, ditos populares, apelidos, topônimos, que, por sua vez, também permitem uma dupla leitura: a literal (o que é dito em interação com o que é pintado) e a pictórica (as letras são traços, são cores também). 


   A artista já participou de inúmeras exposições coletivas no Brasil e no exterior, já ganhou prêmios e, no entanto, por incrível que pareça (na província acontecem coisas incríveis, mas em Paris também), esta é sua primeira exposição individual (Naif Tania - Teatro Deodoro - Maceió - 2017). Poderia ter se valido do vasto leque de amizades para promover-se, por sua casa passaram e passam grandes nomes de nossas letras, como Aurélio Buarque, Ledo Ivo, Sábato Magaldi (todos três da ABL), além de políticos (embaixadores, ministros, governadores), mas preferiu usar seu prestígio para publicar livros que dessem conta das artes produzidas em Alagoas. Estava mais do que na hora de ocupar o lugar que lhe cabe: o centro da cena.